A rainha da Canuto do Val
Revista "Veja SP", 08 de fevereiro de 2006, pág. 32
"Você precisa dar um jeito nesses canteiros de plantas", sugere uma vizinha. "Será que não poderia colocar lixeiras na calçada?", pede um conhecido, menos de dez minutos depois. A empresária Lílian Gonçalves administra a Rua Canuto do Val, no bairro de Santa Cecília - são apenas três quarteirões, um deles diminuto -, com pose e cobranças típicas de uma prefeita informal. Ela tem ali seis bares e casas noturnas: a precursora Biroska, aberta há trinta anos, Bastidores, Viva Maria Pizza Bar, Espetinho, Território da Bahia e Frango com Tudo Dentro, previsto para ser inaugurado no próximo dia 20.
Cabelos artificialmente loiros e longos, roupas de cores berrantes e carros importados luxuosos, Lílian é uma estrela naquele pedacinho da cidade. E prepara-se para ficar famosa também nacionalmente. A partir do dia 9, vira personagem na minissérie global JK, de Maria Adelaide Amaral e Alcides Nogueira, interpretada pela atriz Mariana Ximenes.
Enredo de escola de samba em 1996, a trajetória de Lílian é folhetinesca. Nascida na cidade mineira de Guarapuava, chegou a Brasília durante a construção da cidade, em 1956. Foi com a mãe mais oito irmão num pau-de-arara, depois da morte do presumido pai (ela descobriu anos depois que era filha do cantor Nelson Gonçalves, com quem conviveu após virar empresária). "Só tive coragem de contar que era filha dele quando já o conhecia havia mais de quinze anos", afirma. Sua mãe trabalhou como cozinheira no Catetinho, residência provisória do presidente da Republica antes da inauguração do Palácio da Alvorada, e a menina então com 10 anos teria caído nas graças de Juscelino Kubitschek. "Ele me achava muito esperta, dizia que eu seria alguém na vida", lembra.
Acertou. Aos 14 anos, Lílian mudou-se para São Paulo. Distribuiu folhetos publicitários, vendeu perfumes, foi garçonete e trabalhou como gerente de bar. Com o dinheiro economizado, comprou seu primeiro estabelecimento comercial. Começou aí a bem-sucedida carreira profissional que culminaria com as atuais casas da Canuto do Val. Os bares de Lílian são freqüentados por casais de meia-idade, estudantes universitários e gente que trabalha na região. Estima-se que seu faturamento seja de mais de 10 milhões de reais por ano. Apesar de rica - compra roupa na Daslu, anda em um jaguar novinho e mora com os dois filhos em um casarão no Alto de Pinheiros -, não sabe o que é ficar sem fazer nada. "Trabalho a noite inteira, inclusive no Natal e no réveillon", diz. A passadas largas, mesmo com salto agulha, caminha de bar em bar, confere o serviço, puxa a orelha de um funcionário, elogia outro. São mais de 400 e ela garante que conhece a maioria pelo nome. Dorme pouquíssimo.
"Às vezes, menos de três horas por noite", jura. Conta que mantém a pele bem conservada para seus 57 anos com três cuidados básicos: cremes de qualidade, maquiagem "até para ir ao tanque" e nada de álcool. Sonha transformar sua rua em ponto turística com a criação de uma calçada da fama à Hollywood. A Primeira estrela dourada vai para Pelé, a quem associou na década de 90, na extinta casa noturna Scandal, em pinheiros. Em tempo: junto com a calçada estrelada, Lilian promete que vai arrumar aquelas lixeiras e os canteiros de plantas, como pediram os vizinhos.